7 Fundamentos do desenho: como fazer esboço

Esboço não é uma etapa separada dos fundamentos do desenho como muitos pensam: é o momento em que todos eles acontecem ao mesmo tempo.
Fundamentos do desenho: como fazer o esboço

Outro dia vi uma sequência de posts sobre fundamentos do desenho (clique aqui para ver), falando de um erro que, é um dos mais comuns entre quem está aprendendo a desenhar: pular a etapa do esboço e correr direto para a arte final, seja a line art, render, pintura de cores.

Pensei nisso por dias. Porque não é só um erro besta. É um erro que sabota exatamente os fundamentos que sustentam qualquer bom desenho.

Se você já leu por aqui sobre os fundamentos do desenho talvez ainda não tenha percebido uma coisa: o esboço não é uma etapa separada desses fundamentos. É o momento em que todos eles acontecem ao mesmo tempo.

(Clique aqui para ler sobre fundamentos do desenho)

Por isso, pular o esboço, ou tratá-lo como um rabisco descartável, é como tentar construir uma casa pulando direto para pintar a parede sem antes levantar a estrutura.

Nunca pule o esboço

Vou ser sincero: eu entendo a tentação. Quando você tem uma ideia boa na cabeça, o esboço parece um obstáculo entre você e o resultado final. Ele é feio, é cheio de linhas de construção, não parece “arte” nenhuma.

Então bate aquela vontade de simplesmente pular para a parte “de verdade”, abrir uma camada nova, começar a fazer a line art limpa, já pensar em cor…

Porém, essa pressa carrega uma crença falsa: a de que os problemas de estrutura vão se resolver sozinhos no caminho. Que é possível “consertar depois”. Só que não é. Ou melhor: tem como, mas com um custo enorme de retrabalho e frustração.

(E o pior de tudo um desenho que nunca chega a ficar exatamente como você imaginou.)

Entretanto, isso não tem nada a ver com talento ou criatividade. Tem a ver com técnica. E técnica, como qualquer uma das outras habilidades que discuti no artigo sobre os fundamentos, se constrói em camadas.

Como fazer esboço pode melhorar o seu desenho

O esboço é onde os fundamentos do desenho se encontram

Ao esboçar uma figura, um objeto ou uma cena, o que exatamente você está fazendo, senão definindo o contorno geral das formas?

Está simplificando tudo em formas bidimensionais básicas antes de complicar com detalhe, construindo o volume das coisas, decidindo onde cada elemento “existe” no espaço tridimensional da imagem. Você está resolvendo a proporção entre as partes, o tamanho da cabeça em relação ao corpo, a distância entre os elementos da composição.

Ao esboçar, você posiciona tudo dentro de uma perspectiva coerente. E, mais do que tudo, decide a composição, o que entra no enquadramento, o que sai, para onde o olho do observador vai ser guiado primeiro.

Sendo assim, no momento em que você esboça, você já passou por seis dos sete fundamentos do desenho. O único que ainda não entrou em cena com força total é o valor (luz e sombra), e mesmo assim, um bom esboço já costuma indicar, ainda que de forma tosca, onde vai estar a luz e onde vai estar a sombra.

Isso muda completamente a forma como eu enxergo o esboço hoje. Ele deixou de ser, para mim, uma “etapa preparatória chata”. Ele é o momento mais importante do processo porque é ali que qualquer problema estrutural ainda é barato de corrigir.

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O preço de ignorar o esboço

Aqui está o ponto que mais me marcou nessa reflexão: quando você avança para a line art ou para o render sem ter resolvido esses fundamentos no esboço, você não está “economizando tempo”. Você está apenas adiando o problema e tornando ele mais caro de resolver.

Se o braço do seu personagem está desproporcional já no esboço, é rápido perceber e corrigir: você apaga algumas linhas soltas e ajusta.

Agora imagine perceber isso só depois de horas trabalhando em render, sombreando cada dobra de roupa, cada fio de cabelo. O ajuste que levaria dois minutos no esboço agora exige refazer um trabalho de horas.

O mesmo vale para composição, se o enquadramento não está funcionando, se o elemento principal está competindo com o fundo, se o olhar não sabe para onde ir primeiro (isso é fácil de resolver numa miniatura rápida, um thumbnail). Descobrir isso só na imagem quase pronta é o tipo de coisa que faz a gente querer recomeçar tudo do zero, e não é raro ver ilustrações abandonadas justamente por isso.

Não é sobre criatividade. É sobre estrutura. E estrutura se resolve na base, não na superfície.

“Mas meu esboço é feio demais”

Se você chegou até aqui pensando “mas os meus esboços parecem rabiscos sem sentido, não tem como eu confiar neles” saiba eu já passei por isso, e a virada de chave para mim foi entender uma distinção simples: esboço não é sinônimo de rabisco.

Rabiscar é desenhar sem intenção, só deixando a mão se mover. Esboçar é o oposto: é o momento de maior intenção do processo inteiro, só que expresso com o mínimo de linhas possível. Um esboço bem feito, mesmo tosco, já mostra com clareza:

  • onde está o peso e o equilíbrio da figura ou da cena;
  • que direção o olhar do observador vai seguir;
  • como a proporção entre os elementos está funcionando;
  • se a perspectiva escolhida realmente serve à ideia.

Um esboço confuso normalmente não é “feio”, ele é indeciso. É um esboço feito sem primeiro parar para pensar no que a imagem precisa comunicar. E isso, sim, é treinável: quanto mais você pratica os fundamentos separadamente (como venho defendendo nos textos daqui do blog), mais intencional e mais rápido o seu esboço fica.

Exemplo de esboço

Como eu tenho tentado aplicar isso na prática

Depois dessa reflexão, mudei um pouco a forma como abordo qualquer desenho novo. Virou quase um checklist mental antes de sequer pensar em “arte final”:

  1. Miniaturas rápidas primeiro. Antes de esboçar em tamanho real, faço 3 a 5 versões pequenas e rápidas só para testar composição e enquadramento. Gasto menos de cinco minutos nisso, e evito descobrir um problema de composição só no final.
  2. Formas antes de detalhes. Reduzo tudo a blocos geométricos simples (círculos, cubos, cilindros) antes de me preocupar com qualquer traço fino.
  3. Meço em vez de “achar”. Uso o próprio lápis, ou referências dentro do desenho, para comparar proporções, em vez de confiar só no olho.
  4. Só avanço quando o esboço “funciona” sozinho. Se, olhando só para as linhas soltas do esboço, a ideia já se comunica, a pose faz sentido, a composição guia o olhar, a proporção está equilibrada, aí sim vale a pena investir tempo em refinar.
como fazer thumbnails
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Esse último ponto é, sinceramente, o que mais mudou meus resultados.

Porque um esboço que “funciona” sozinho é a garantia de que o tempo que você vai investir depois em linha, em sombreado, em cor, está sendo investido em cima de uma base sólida, e não sobre um problema que ainda vai aparecer lá na frente.

O esboço não é o obstáculo. Ele é o mapa.

A frase que resume essa virada de mentalidade, é essa: o esboço não está entre você e o desenho final ele é o mapa que mostra o caminho até lá.

Cada linha de construção, cada forma geométrica solta, cada ajuste de proporção feito ainda no esboço é, na prática, você treinando, em conjunto e ao mesmo tempo, praticamente todos os fundamentos do desenho. Contorno, forma, volume, proporção, perspectiva e composição, todos acontecendo juntos, numa etapa que muita gente ainda trata como descartável.

Da próxima vez que a vontade de pular direto para os detalhes bater, vale a pena parar e perguntar: meu esboço já está me mostrando, com clareza, o que essa imagem precisa ser? Se a resposta for sim, siga em frente com confiança. Se for não, esse é exatamente o momento barato, rápido e sem dor de ajustar.

É assim, esboço por esboço, fundamento por fundamento, que um desenho vai deixando de depender de sorte e passando a depender de técnica.

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